Recomendamos: Clube dos Poetas Imortais: Ernesto Sampaio

Este é o último texto desta série, na qual privilegiei a presença de amigos e de poetas estrangeiros de língua portuguesa, pouco divulgados entre nós. Aglutinando esta a outra série, «Poemas com história», começarei em 2010 a série «Poesia & etc.», onde me debruçarei sobre poetas, vivos ou falecidos, eruditos ou populares, e, de quando em vez, um poema meu, de preferência inédito – sempre com paleio explicativo. Falarei também de poetas que nunca escreveram poemas. Digamos que o «etc.» do título é muito abrangente. Comecei este clube com o António José Forte e termino-o com outro poeta surrealista – Ernesto Sampaio.

Conheci o Ernesto Sampaio no café Gelo, em 1958. Na tarde de 16 de Maio eclodiram motins por ocasião da chegada a Lisboa, vindo da triunfal visita ao Porto, do general Humberto Delgado. Já houvera confrontos na estação de Santa Apolónia e repetiram-se, com maior violência, quando o general chegava à sede da candidatura, que funcionava no Teatro Avenida. No meio da refrega, encontrei-me lado a lado com o Ernesto Sampaio que conhecia, como já disse, do Gelo. E lá andámos na faina do arremesso de pedras, nos avanços e fugas – o trivial, nestas coisas. Já anoitecia, quando chegámos ao Gelo. Contámos aos outros, que tinham ficado à mesa do café a ouvir os rumores dos confrontos, o que se passara.

Ficámos com uma relação boa, embora um pouco formal (nunca nos tratámos por tu). Ele era uns anos mais velho e isso, naquelas idades e naquele tempo, tinha alguma importância. E talvez não fosse só pela idade – o Ernesto era de uma erudição que na altura me atemorizava. Foi a ele que confiei a primeira leitura de uma tradução que fizera de um texto de Breton. Frequentara o liceu Charles Lepierre, sabia bastante de francês, mas a tradução, que me apressei a deitar fora, estava, por certo, horrível, escolar. Enquanto a lia vi que ele se esforçava por não se rir. Quando acabou a leitura, disse-me: «Bem, tem umas infidelidadezitas, umas acepções certas, mas mal escolhidas, soluções demasiado literais… mas assim até fica mais surrealista!» Percebi logo que a tradução estava péssima e desatei-me a rir e o Sampaio que, por delicadeza, estava a conter uma gargalhada, soltou-a.

Más información en: aventar

Autor

Scroll al inicio